Já conheces o eBook que o Palco Principal está a oferecer? Descarrega-o aqui!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
JP Simões - "Roma": O português voador Crítica ao disco
 
2013-05-29 10:29 inserido por Sara Novais

Português, italiano, inglês, francês, português do Brasil. JP Simões apresenta-nos um álbum cantado nestas línguas todas, com um cheirinho a bossa nova, a ritmos africanos, a samba, a canção francesa, a poesia. “Roma” revela-nos um projeto mais ambicioso mas, também, mais bem definido. Entre cá e lá, e depois dos Pop Dell’Art, Belle Chase Hotel e Quinteto Tati, temos um português que ganhou asas para voar.

JP Simões parece ser o «herdeiro» natural de Sérgio Godinho, nas composições e na forma como se envolve com sons de outros países. Se Sérgio Godinho foi o primeiro músico português a gravar temas compostos em parceira com músicos como Chico Buarque, Milton Nascimento ou Ivan Lins – álbum “Coincidências” (1983) –, JP apresenta neste trabalho uma versão de “Valsa Rancho”, composto por Chico Buarque. Sérgio Godinho editou o seu primeiro trabalho, “Os Sobreviventes”, em 1971, um ano após o nascimento de JP Simões, que, inclusive, deu o nome "1970" ao seu primeiro álbum a solo.

Mas é, sobretudo, na voz, que nos conduz como a flauta de Hamelin, que os dois cantores/compositores se aproximam. Ouvir as vozes de Sérgio Godinho ou de JP Simões e a forma como se estas se cruzam com os mais diversos instrumentos é deixarmo-nos levar por uma ligação única, quase pessoal, entre nós, os que ouvimos, e eles, que (nos en)cantam.

A abrir “Roma”, temos a italiana “La Strada” que, ao contrário do filme “La Strada”, de Fellini, com música composta por Nino Rota, apresenta-nos uma canção muito positiva, que se inicia com um assobio, onde JP nos fala de um mundo cão, mas também do dolce fare niente, das crianças, dos poetas e do amor. Num ritmo timbrado pela percussão e que fecha, também, com um assobio, aquele que entoamos quando queremos mostrar que tudo está bem, “La Strada” leva-nos, por um bom caminho, para “O Português Voador”, o segundo tema. É aqui também que se ouvem, pela primeira vez, as vozes femininas (Luanda Cozetti, Sara Abrantes, Carla Galvão, Joana Manuel, Ana Vieira e Filipa Pais) que acompanham a «maravilha» que JP Simões quer descobrir, além da dor, do sofrimento, tudo regado pelo trompete e saxofone e pelos ritmos quentes de África, numa percussão que, por vezes, dá um salto ao Brasil.

E continuamos no Brasil, com “Rio-me de Janeiro”, ao som do violão, ao ritmo da voz que anuncia “bem-vindo ao inferno”. Uma canção política sobre burocracia, Goldman Sachs, Milton Freeman, dinheiro, fome, frio e medo, e que manda todos os que nos subjugam e nos atrasam a vida para a “culpa que os pariu”, mas sempre no ritmo da bossa nova, porque ainda assim, acima do desgaste, resta-nos a (já pouca) alegria de viver.

“Gosto de me drogar”, diz JP Simões, naquele que é o single de apresentação deste “Roma”. E, desta forma, drogado e embriagado, JP Simões revela-se uma pessoa que se deixa andar, resignada, e que, se é para aceitar a vida que nos está predestinada, que seja com uma taça de espumante, que torna tudo mais interessante. Num diálogo entre a voz e os metais, uma canção que nos leva a olhar para o declínio de tudo o que nos rodeia.

O “Fardo do amor” é, na minha perspectiva, a canção mais fraca do álbum. A letra é irrepreensível, mais uma vez da autoria de JP Simões, mas a nível instrumental soa-me a uma das muitas músicas dos anos 80, 90, quando se fizeram coisas menos boas em Portugal. O baixo, a guitarra elétrica e os sintetizadores parecem um déja vu, e não daqueles que queremos tornar a ver e a ouvir…

Com “A million songs of yesterday’, JP Simões entra na pop «britânica». Uma guitarra, um piano e JP Simões que nos diz “I guess we have to keep on dreaming…”. Uma canção que nos leva para o passado, para o que já passou e para essa bagagem que carregamos connosco. “Correu mal ou correu bem, mas vamos ter de continuar”. That’s life.

E são canções como “No dia em que vi o meu bem” que nos sentimos perto da herança de Sérgio Godinho. “Parecia que Deus existia/ No dia em que vi o meu bem” é um daqueles versos que vamos continuar a recordar durante muito tempo, como as frases inesquecíveis que tiramos dos livros que guardamos para sempre. Um poema de amor num tempo que parece de desamor.

“O criador e a criatura” tem um ritmo de música popular brasileira, uma das maiores influências de JP Simões, e é um dos melhores «diálogos» entre a voz de JP, o violão de Grabriel Godói e o cavaquinho de Tércio Borges; os instrumentos de sopro, de Jorge Reis; e as teclas de Tomás Pimentel. Uma prenda maravilhosa. E continua o ritmo na canção que leva sotaque brasileiro, “Samba Radioactivo”, onde se faz notar mais a voz da brasileira Luanda Cozetti (Couple Coffee).  Uma canção com cheiro a carnaval do Brasil.

E chegamos às duas únicas canções que não levam a assinatura de JP Simões. A primeira, “Ils cassent le monde”, um poema de Boris Vian – compositor, músico de jazz, engenheiro, dramaturgo, crítico de cinema, escritor, tradutor, poeta –, que ficou sobretudo conhecido pelos seus romances e canções. Um tema sobre “eles, que partem isto tudo”: “Ils cassent le monde/ Avec leurs marteaux pesants/ Il en reste assez pour moi/ Il en reste assez, mon coeur” / “Eles quebram o mundo/ Com seus maciços martelos/ Ainda me sobra muito/ Ainda sobra muito, meu coração”. Mais uma vez uma canção que reflete um mundo perdido, mas no qual ainda é possível continuar a acreditar. O segundo tema não composto por JP chega-nos do outro lado do Atlântico: “Valsa rancho”, de Chico Buarque. Um sotaque brasileiro embalado pelo violão de Gabriel Godói. E ficamos cheios. Há angústia, há medos, há o mundo partido em que vivemos. Mas há esperança e há a voz de JP Simões para nos levar a voar para longe de tudo isto.

Alinhamento:

1-La strada
2-O português voador
3-Rio-me de Janeiro
4-Gosto de me drogar
5-O fardo do amor
6-A million songs of yesterday
7-No dia em que vi o meu bem
8-O criador e a criatura
9-Samba radioactivo
10-Ils cassent le monde
11-Valsa rancho

Classificação Palco: 8/10

Helena Ales Pereira

 

Comentários







Segue-nos no Facebook!

 





Ver mais notícias