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D’Angelo – “Black Messiah”: Um regresso tão esperado, quanto essencial Crítica ao disco
 
2015-01-06 12:35 inserido por Sara Novais

O Messias regressou para nos salvar, pelo menos da saudade deixada por “Voodoo”, segundo trabalho de D’Angelo, lançado há mais de 14 anos, mas que, ainda assim, manteve enfeitiçados os seus fiéis seguidores, que ao longo do tempo aguardaram pacientemente pelo regresso do cantor, considerado por muitos e bons o pioneiro do chamado neo-soul.

E é mesmo uma ‘magia negra’ a que este cantor provoca aos nossos ouvidos e, seja ele o ‘messias negro’ ou ‘R&B Jesus’ (como em tempos já foi apelidado), a verdade é que, até hoje, ninguém preencheu o seu lugar, permanecendo inocupado o trono que o mesmo faz questão de não reclamar.

Deu-se a conhecer ao mundo em 1995, com “Brown Sugar”, confirmando o seu talento cinco anos mais tarde com a aclamada obra-prima, “Voodoo”. No mesmo ano, tornou-se também um sex symbol, graças à sua performance despida e arrojada no vídeo de “Untitled”. Contudo, foi sempre claro e transparente aos olhos e ouvidos de todos a genialidade de D’Angelo, que, seja criando no estúdio, seja brilhando em palco, reuniu na sua música soulful os mais variados géneros, como o gospel, o jazz e o hip hop, numa combinação perfeita.

Este era, por isso, um álbum muito esperado, que o cantor tem vindo a cozinhar em banho-maria ao longo dos anos, nos entretantos de algumas nuances como foram participações noutros trabalhos (J Dilla, Q-Tip ou Snoop Dogg, entre outros), live performances, problemas pessoais (álcool e drogas) e outros conflitos internos, que prolongaram a espera até ao dia 15 de dezembro de 2014, data em que, repentinamente e do nada, foi lançado o álbum.

Há quem compare este lançamento surpresa à estratégia adotada há um ano atrás por Beyoncé, bem como a estrutura do álbum, desprovido de singles destacados, onde todo e cada um dos temas coabitam isolada e harmoniosamente na mesma casa. A meu ver, este disco não precisa de estratégias de marketing ou fórmulas mágicas: o mesmo era, simplesmente, essencial. E pese embora o sentimento é de que qualquer altura seria a certa para recebermos este álbum, a verdade é que o mesmo foi antecipado por D’Angelo, face aos últimos acontecimentos de injustiça racial que assolam os E.U.A. ‘Acordado’ pelo dever cívico que o rodeia, o cantor não conseguiu ficar indiferente e apressou, por isso, os últimos preparativos do disco, cujo lançamento estava previsto para o início de 2015. Tão quente como acabado de sair do forno, chegou até nós “Black Messiah”, a única forma através da qual o cantor consegue falar bem alto – a música.

“Black Messiah is not one man. It’s a feeling that, collectively, we are all that leader” – É este o sentimento que D’Angelo pretende transmitir no seu novo disco, conferindo uma carga social e política a alguns dos seus temas, como “1000 Deaths”, onde procura explicar o conceito de “Black Messiah” num funk militante, governado por guitarras revolucionárias; ou em “The Charade”, cuja verdadeira charada não é fácil de decifrar… "All we wanted was a chance to talk/ ‘Stead we've only got outlined in chalk" – canta-nos D’Angelo face a este racismo sistematizado e enraizado num país onde nem sequer uma presidência negra conseguiu mitigar. Não deixa de ser uma temática, infelizmente, algo familiar… Já em tempos Marvin Gaye se questionou: “What’s Going On?”.

A espiritualidade e as preces de D’Angelo fazem-se também ouvir em “Prayer”, num gospel sincopado, onde as guitarras se cruzam com o som das badaladas, numa espécie punk rock abençoado; no tema de abertura, “Ain’t That Easy”, fala-se de sacrifício e paz de espírito.

Mas outras influências que não só a conjetura social compõem estre trabalho no qual D’Angelo se faz acompanhar por The Vanguard – uma série de colaboradores recentes (Kendra Foster e o guitarrista Isaiah Sharkey) e antigos, como são os suspeitos do costume Questlove (bateria), Pino Palladino (baixo) e Roy Hargrove (trompete). Estes, entre outros, contribuíram na elaboração deste disco sem corantes nem conservantes, totalmente analógico, no qual o truque é: quanto mais alto for o volume, melhor. 

Aqui e ali estão presentes os espíritos de um passado recente que o continuam a inspirar, como é o caso de Sly Stone, ou a figura bem viva de Prince, uma influência constante ao longo da sua carreira. Mas é funky, bem funky, este disco, trazendo-nos novos sabores, diferentes de brown sugar, mantendo, ainda assim, inalterados alguns ingredientes base, como podemos ouvir em “Sugah Daddy”, um dos temas já apresentado pelo cantor em 2012, em digressão, e cujo groove é muito similar ao de “Chicken Grease” (“Voodoo”, 2000). E deste tema é fácil passar para “Really Love”, o primeiro single oficial. Uma balada acústica, onde se canta um amor atormentado, ao som de uma guitarra espanhola apaixonada.

Em “Back to the Future (Part I)” é a nostalgia que impera, sem sabermos a que dias gostaria o cantor de regressar, e em “Betray my Heart” ficamos presos às cordas que suavemente nos envolvem no tema mais jazzy de todo o álbum.

Foram 14 anos de espera que nos deram motivos para suspirar, barafustar, desistir de acreditar… O ‘Black Messiah’ finalmente chegou para nos salvar e, uma coisa é certa, valeu a pena esperar.

Alinhamento:

01. Ain’t That Easy
02. 1000 Deaths
03. The Charade
04. Sugah Daddy
05. Really Love
06. Back to the Future (Part I)
07. Till It's Done (Tutu)
08. Prayer
09. Betray My Heart
10. The Door
11. Back to the Future (Part II)
12. Another Life

Classificação: 9/10

Lucélia Fernandes
Groove your Soul
 

 

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