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Review: A metamorfose de Zelig

 
16.06.2010 - 02:06

A formação existe desde 2006. Ao ex-Ornatos Peixe e a Eduardo Silva juntaram-se Nico Tricot, António Serginho e José Marrucho. O nome - Zelig - é uma alusão ao homem-camaleão de Woody Allen. Uma metáfora que se aplica bem à situação: também as músicas originais deste grupo se transfiguram com o ambiente que os envolve. Cinco músicos diferentes, com percursos distintos: do seu cruzamento nasceu este disco, "Joyce Alive".

Marimba, vibrafone, flauta, teclas, serrote, contrabaixo, guitarra, saxofone, trompete, violino e berimbau são apenas alguns dos intrumentos que se podem ouvir no CD, essencialmente instrumental, pautado apenas numa das músicas por um delicado coro feminino. A palavra não entra mas também não faz falta. Está lá tudo dito.

A coerência conseguida, sem ser necessário recorrer à homogeneidade, é grande e grandiosa, do início ao fim do trabalho que os Zelig nos apresentam. O princípio é logo contagiante: a primeira música, Sopro da Morte, dá a quem a ouve um «sopro» de energia, transmitindo para o CD a animação que emanam em cima dos palcos. A sonoridade mais revivalista da primeira faixa alterna com o «sopro» trazido pelo coro que, apesar de breve, desempenha um papel fundamental na ornamentação da música.

E assim vai seguindo. A sonoridade é alvo de metamorfose de faixa para faixa. Os músicos são os mesmos, os intrumentos, com algumas mudanças, também, mas a metáfora Zelig é bem perceptivel para quem ouvir o disco todo.

Os nomes das faixas são, no mínimo, curiosos. Depois da Supernoiva e da Pangpong, músicas mais tranquilas, segue-se Contra o quê, onde se sente uma aposta conseguida com tonalidades mais experimentais - uma mistura heterogénea de sons (nem todos instrumentais) que não nos faz antever a música seguinte.

Despedida começa muito harmoniosa e tonal, com a flauta a tomar o lugar de destaque, juntamente com a marimba, que vem estando, aliás, sempre presente até aqui. Depois do meio da faixa, o choro do serrote  solista faz juz ao nome da música, tornando-a menos melódica, resolvendo-se tudo no fim, quando a marimba volta.

Mas a despedida ainda está longe. Vodasucks traz o som da guitarra, num pequeno excerto mais “roqueiro”, e o peso da percussão faz do início de Mox, um momento mais escuro, onde o brilho dos metais dos instrumentos de sopro não está tão presente.

Tchamini é uma pausa, passado meio CD, e serve como intervalo. As teclas fazem-se ouvir e toda a energia electrizante ganha até este momento aproveita aqui a deixa para repousar.

É que logo a seguir chega Tube Dance, trazendo consigo de volta sonoridades já ouvidas para trás, mas desta vez com um cheirinho a Jazz e às improvisações que o caracterizam.

Joyce retoma um pouco a energia da primeira música, com uma paleta sonora semelhante e também dinâmica. A concorrer com os intrumentos, em certas alturas ouve-se ao fundo um relato de futebol.

Inspector aproveita a retirada calma de Joyce para começar de mansinho, havendo depois espaço para a improvisação e a experiência.

Zotimox vem-nos acordar do transe para que fomos transportados na música anterior, ao mudar radicalmente de ritmo, conduzindo-nos, por vezes, para o Médio Oriente. Acaba com uma cadência perfeita, que nos leva até à última música.

A viagem por este mundo sonoro acaba tranquilamente, percutido e retomando um bocadinho dos sons vibrantes e distantes, com Cobrinhas, com uma “sinfonia” nos últimos segundos do CD.

Sons que nos remetem para outras décadas, em que Emerson, Lake and Palmer fizeram as suas experiências em torno dos Quadros de uma Exposição, de Mussorgsky, ou para as flautas que acompanham Jethro Tull em músicas do álbum "Thick as a Brick".

São possivelmente várias as influências destes cinco músicos mas o melhor mesmo é predispormo-nos a ouvir o CD com atenção.

A metamorfose não se encontra apenas presente de faixa para faixa. É também perceptível dentro da mesma música, onde somos levados por ambientes diferentes sem darmos pela mudança.

Entre o acústico e as experiências electrónicas, é uma aposta arriscada, nas músicas e na apresentação. As cores e as formas estão presentes na capa do CD. Interessantes quando isoladas, mas com ganho de coerência quando juntas. Assim são também as músicas.

Um disco intrumental que não serve para sonorizar o ambiente. Tem mesmo de ser ouvido com atenção. Não se enquadra em grandes palcos nem em ambientes de grandes massas. É um trabalho diferente, sem par no espectro nacional, mas que tem, de certeza, um lugar importante a ocupar. É uma lacuna na música portuguesa que ficou agora preenchida.

Ágata Ricca

 
 
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